sexta-feira, novembro 07, 2003

O direito à Preguiça

A abstinencia à qual a classe produtiva se condena, obriga os burgueses a se dedicar ao superconsumo dos produtos que ela manufatura desordenadamente. No início da produção capitalista há um ou dois séculos o burguês era um homem ajuizado, de hábitos razoáveis e calmos; contentava-se com a sua mulher ou quase; bebia e comia moderadamente. Deixava aos cortesãos e às cortesãs as nobres virtudes da vida depravada. Hoje, não h? filho de novo rico que não se julgue obrigado a alimentar a prostituição e a intoxicar seu corpo de mercúrio para dar um objetivo ao trabalho que os oper?rios das minas se impõem; não há burguês que não se farte de capões trufados e vinho envelhecido..." (...)

Chaplin em Tempos Modernos

"Nessa profissão, o organismo deteriora-se rapidamente, os cabelos caem, os dentes descarnam-se até a raiz, o tronco deforma-se, o ventre entripa-se, a respiração se perturba, os movimentos tornam-se pesados, as articulações endurecem, as falanges ficam cheias de nós. Outros demasiadamente fracos para suportar as fadigas da devassidão, mas dotados de um dom proudhomesco, dissecam o seu cérebro lucubrando grossos e enfadonhos livros para ocupar o tempo livre de compositores e tipógrafos."

(ex-traído de "O direito à Preguiça" de Paul Lafargue)

sábado, novembro 01, 2003

PAW NOKOKO fala sobre a compaixão:

Numa toca à beira do lago PEI DO (significa “som estranho”), vivia um sapo chamado TXE REKHA (significa “que engole tudo”).

Era tremendamente feio, cheio de manchas pelo corpo, mas tão esperto que certa vez convenceu BOUNDHA (unico discipulo de PAW NOKOKO) a beija-lo e, assim, ganhou uma aposta que fizera com PAW ZAN, o crocodilo vegetariano e taoista...
Um dia TXE REKHA encontrou um enorme coco e tentou come-lo. Abriu a boca o mais que pode, mas o coco não passava. Decidiu, então hipnotizar o coco e convencê-lo de que era uma goiaba. Colocou o coco numa pedra e ficou horas recitando: - Relax! Você é uma goiaba. Relax, você é uma goiaba...
Convencido ele mesmo, de que o coco era uma goiaba, abriu a bocarra e tentou engolir o coco que ficou entalado com a metade do lado de fora. Mal podendo respirar, foi se arrastando ao ashram de KOKO ZAN. Ficou parado na frente dele esperando uma solução. KOKO ZAN chamou os alunos e fez um tremendo sermão sobre a gula, apontando, acusadoramente, para o pobre sapo.
TXE REKHA ja expelia lagrimas pelos esbugalhados olhos, tamanha era a pressão do coco sobre o céu da boca. KOKO ZAN, imaginando que aquelas lagrimas significavam arrependimento, escreveu uns mantras na areia e disse para TXE REKHA: - Recite-os que seu karma sera limpo e, na sua proxima encarnação, voce nascera como um jacaré. Se nao recitar, renascera como uma lagartixa!
Desiludido, TXE REKHA resolveu suicidar-se.
Mergulhou no lago na esperança do coco afundar com ele. O coco flutuou e, levado pela correnteza, foi parar no outro extremo do lago PEI DO (significa “cheiro horrivel”).
PAW NOKOKO la estava tomando um banho de sol, passando oleo na pele.
Ao ver TXE REKHA com o coco entalado na boca, olhos suplices, PAW NOKOKO riu gostosamente, tirou o coco, entregou a BOUNDHA, recomendando: - Abra-o que sua agua deve estar doce e fresca.
Aliviado do seu sofrimento fisico e espiritual TXE REKHA deu um enorme pulo por cima do corpo de PAW NOKOKO, e cantou em sua homenagem:
"Gula nao é pecado
Mas sim
Ter a boca
Menor que o bucado".
(ex-traido de “O Dragao com asas de borboleta” Prashanto/90)