quarta-feira, julho 28, 2004


DUAS CULTURAS
 
 Se olharmos para as figuras cerimoniais da deusa matrística em suas várias formas, poderemos vê-la como uma presença, uma corporificação, um lembrete e uma evocação do reconhecimento da harmonia dinâmica da existência.
Tais figuras revelam, segundo penso, a ligação e a harmonia da existência de um viver que não estava centrado na manipulação nem na reafirmação do ego.
Assim, o pensamento humano talvez tenha sido naturalmente sistêmico, lidando com um mundo em que nada existia em si ou por si mesmo, no qual tudo era o que era em suas conexões com tudo mais.
Os povos matrísticos europeus pré-patriarcal devem ter vivido uma vida de responsabilidade total, na consciência de pertença a um mundo natural. A responsabilidade ocorre quando se está consciente das consequências das próprias ações e quando se age aceitando-as. Isaso inevitávelmente acontece quando uma pessoa se reconhece como parte intrínseca do mundo em que vive.
O pensamento patriarcal é essencialmente linear, ocorre num contexto de apropriação e controle, e flui orientado primariamente para a obtenção de algum resultado particular porque não observa as interações básicas da existência. Por isso, o pensamento patriarcal e sistemicamente irreponsável.

(ex-traído de "Amar e Brincar - Fundamentos Esquecidos do Humano" H. Maturana e Gerda Verden-Zöller, 1993)

quinta-feira, julho 22, 2004


DUAS CULTURAS
 
      Nossa forma de vida patriarcal européia surgiu do encontro das culturas patriarcal pastoril e matrística pré-patriarcal européia como resultado de um processo de dominação patriarcal diretamente orientado para completa destruição de todo o matrístico, mediante ações que só poderiam ter sido moderadas pela biologia do amor. Com efeito, se quisermos imaginar como isso pode ter ocorrido, tudo o que temos a fazer é ler a história da invasão da Palestina - fundamentalmente matrística - pelos hebreus patriarcais, tal como está relatada na Bíblia.
       A cultura matrística não foi completamente extinta: sobreviveu aqui e ali em bolsões culturais. Em especial, permaneceu oculta nas relações entre as mulheres e submersa na intimidade das interações mãe-filho, até o momento em que a criança tem de entrar na vida adulta, na qual o patriarcado aparece em sua plenitude.
        As crianças nascidas sob esse conflito foram e são testemunhas participantes dele. E o viveram e vivem como uma luta permanente entre o homem e a mulher, que acabou por ser vivida como se fosse uma oposição intrínseca entre o masculino e o feminino, também no seio de sua identidade psiquica individual.

(ex-traído de "Amar e Brincar - Fundamentos Esquecidos do Humano" de H. Maturana e Gerda Verden-Zöller, 1993)

segunda-feira, julho 19, 2004

Memórias e verdades
 
Dizem que nossas memórias são por natureza versões de nossa idéia sobre o que seja a verdade.  Ou enfim, não é realmente "o verdade" que lembramos, mas uma versão, talvez um pouco romântico, do que percebemos.  Temos uma tendência de apagar as memórias ruims, e elaborar as memórias boas.  No presente, vimos os acontecimentos através de um olhar modificado pelo que nosso condicionamento passado indica ser a realidade.  Cada um de nós vivemos uma verdade presente diferente da que os outros testemunhos do mesmo acontecimento vivem, e conseqüentemente cada um tem uma lembrança diferente daquilo que várias pessoas presenciaram juntas.
 
Podemos comentar, contar e pensar sobre nossas memórias com a luz da razão, mas sempre estaremos racionalizando sobre uma "mentira branca": nossa versão do que se passou. Se nossas percepções se baseiam em nossas memórias, e se nossas memórias esculpem nosso condicionamento sobre a verdade, então será que nosso condicionamento é definido por uma visão não real, ou mesmo falsa, da nossa vida?  Vivemos então numa fantasia? Ou será que nosso condicionamento se baseia em nosso inconsciente, como deve ser o caso de um bebê antes de se sentir como um ser separado de sua mãe.  Será que nossas percepções inconscientes são mais verdadeiras do que nossas percepções conscientes, ou "acordadas": nossas "memórias"? Então nossas ações daqui para diante poderiam ser muito mais válidas se fossem baseadas em nosso inconsciente, em nossa intuição, do que baseados em nossa razão, que é condicionada pelas "fantasias" que passam por nossas memórias. 
 
Viva a época de INTUIÇÃO e INCONSCIENTE humanos!

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quarta-feira, julho 14, 2004

O amor é lindo...
HOMENS E MULHERES

Nós, seres humanos, somos entes biológicos (homo sapiens sapiens) que existem num espaço biológico cultural. Na qualidade de entidades biológicas, nós, homens e mulheres, somos, em termos sexuais, classes diferentes de animais. Essa diferença, contudo, não determina como nos destinguimos ou deveríamos nos destinguir culturalmente como homens e mulheres, já que como entidades biológicas e culturais somos seres humanos iguais. Isto é, somos capazes de tudo que é humano.
As diferenças de gênero (masculino e feminino) são sómente formas culturais específicas de vida, redes específicas de conversações. É por isso que os diferentes valores que nossa patriarcal confere às diferenças de gênero não tem fundamento biológico. Em outras palavras, as distinções sexuais entre homem e mulher são biológicas, mas o modo como as vivemos é um fenômeno cultural... refrem-se ao modo como vivemos culturalmente nossa diversidade biológica, a partir de um fundamento de igualdade em nosso ser biológico cultural.

(ex-traído de "Amar e Brincar - Fundamentos Esquecidos do Humano" de H. Maturana e Gerda Verden-Zöller, 1993)